sábado, 5 de setembro de 2026

Coelho-do-mato no RN: ele ainda existe, mas por que é tão raro de ver?

Você sabia que o Brasil tem um coelho nativo, silencioso e tão discreto que muita gente vive a vida inteira sem cruzar com um? Pois é, ele existe, e atende por vários nomes populares: tapiti, coelho-do-mato, candimba, candinha e tapotim. Na ciência, é chamado de Sylvilagus brasiliensis, da família Leporidae, a mesma dos coelhos e lebres em geral, mas com uma história bem particular escrita em solo brasileiro. O nome "tapiti", inclusive, vem do tupi-guarani e significa "pelo branco na barriga", uma referência direta a uma das marcas mais características dele. 
Coelho-do-mato (Sylvilagus brasiliensis) em solo aberto no Agreste Potiguar, mostrando o corpo marrom-amarelado e orelhas curtas.

Um coelho de orelhas curtas e olhos grandes


Comparado à lebre-europeia, o tapiti é bem menor: tem de 20 a 40 cm de comprimento de corpo, uma cauda quase imperceptível medindo entre 1 e 6 cm e pode pesar até 1,2 kg. As orelhas são relativamente curtas, enquanto os olhos são grandes e escuros, as narinas são flexíveis, características que ajudam bastante um animal que precisa estar sempre atento ao que se move ao redor.

A pelagem é densa, curta e de coloração marrom-amarelada no dorso enquanto no ventre é mais clara, num contraste que funciona como camuflagem entre a vegetação. As patas também contam uma história de adaptação: os membros anteriores são mais curtos e têm cinco dedos, enquanto que os posteriores são mais longos, com quatro dedos, uma estrutura que favorece os saltos rápidos e as fugas em ziguezague quando diante de um possível predador.
Vista superior de um coelho-do-mato (Sylvilagus brasiliensis) mostrando a pelagem densa e mesclada do dorso.


Há ainda um detalhe que ajuda a diferenciar essa espécie de outros coelhos sul-americanos: as fêmeas, maiores que os machos, possuem três pares de mamas, sendo essa uma característica distintiva dela.

Vida solitária, à sombra da mata


O tapiti não é um animal de rotina fácil de flagrar: tem hábitos solitários, crepusculares e noturnos, e durante o dia prefere se esconder sob raízes expostas, dentro de troncos ou por baixo da vegetação densa. É nas áreas de transição e nos bosques com trechos mais abertos que ele costuma circular, sempre alerta, já que serve de presa para répteis, aves e mamíferos. Quando percebe uma ameaça, ele primeiro congela, fica completamente imóvel antes de sair correndo, podendo dar o primeiro salto com mais de 1 metro de distância.

Na alimentação, o cardápio desse coelho é bastante variado: gramíneas e vegetais tenros são a base, complementados por talos, folhas, raízes, frutos e sementes, tanto do sub-bosque quanto de áreas abertas. Essa flexibilidade alimentar é um dos motivos que explicam por que os leporídeos, como grupo, conseguem ocupar ambientes tão diversos.
Coelho-do-mato (Sylvilagus brasiliensis) parcialmente escondido e camuflado no meio de capim seco.


Quanto à reprodução, o tapiti não perde tempo: pode procriar durante o ano inteiro. A gestação dura entre 30 e 45 dias e cada ninhada traz de 2 a 7 filhotes, que nascem em um ninho cavado no chão pela própria fêmea. O desenvolvimento é rápido, no qual os filhotes abrem os olhos já na primeira semana de vida, deixam o ninho na segunda semana, tornam-se independentes em cerca de um mês e atingem a maturidade sexual aos 3 meses, embora costumem acasalar com mais frequência somente depois de completar um ano. Vale notar que essa espécie não demarca território, mas defende o ninho com afinco enquanto os filhotes ainda dependem dele.

Onde encontrar o tapiti


Atualmente, o tapiti (Sylvilagus brasiliensis) está restrito à região Nordeste do Brasil, mais especificamente ao Centro de Endemismo Pernambucano, dentro principalmente do bioma Mata Atlântica. É por lá que ele ocorre, nos estados da Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Ele ocorre bem por áreas de transição e bosques com trechos mais abertos, muitas vezes próximos a cursos d'água. Apesar dessa presença histórica na região, quem já foi um animal frequente tornou-se, com o tempo, mais raro e mais difícil de avistar. Curiosamente o primeiro registro documental publicado para essa espécie no RN foi no bioma Caatinga, município de João Câmara. 
Durante minhas excursões pelo estado do Rio Grande do Norte, tenho observado o coelho-do-mato (S. brasiliensis) em área com vegetação típica da Mata Atlântica e áreas de ecótono-transição entre a Mata Atlântica e a Caatinga, na mesorregião Agreste Potiguar. 
  

As ameaças por trás da raridade


O tapiti convive com pressões variadas. É caçado tanto para alimentação quanto por ser visto como praga em lavouras, já que consome frutos e hortaliças. Cães domésticos e atropelamentos também entram na lista de riscos que pesam sobre suas populações. Mas o problema mais estrutural é a perda de habitat: o desmatamento e a expansão de assentamentos humanos já destruíram 94,4% da cobertura florestal na área de distribuição da espécie. Some-se a isso a introdução da lebre-europeia no Brasil, que pode competir com o tapiti e contribuir para a queda de suas populações locais. Diante de todas  essas ameaças, pode-se considerar que ao menos em nível estadual a espécie deve encontra-se ameaçada de extinção atualmente.

E você, já viu um tapiti?


👉Já topou com um coelho-do-mato durante uma trilha, numa área de mata ou perto de casa? Conta sua experiência nos comentários!

Um vizinho silencioso que merece atenção


O coelho-do-mato é prova de que nem todo animal precisa ser grande ou vistoso para ter uma história rica. Discreto e adaptável, ele carrega um pedaço da nossa biodiversidade que corre o risco de virar apenas lembrança se a perda de habitat continuar avançando. 
Gostou de conhecer mais sobre esse coelho silvestre? Compartilhe este post, siga o Fauna e Flora do RN e ajude a espalhar essa história por aí!

Referências

DANTAS, Ana Raquel Carvalho; MENEZES, Fernando Heberson; SERRA, Kalyl Silvino; BARBOSA, Edja Daise Oliveira; FERNANDES-FERREIRA, Hugo. First record of Sylvilagus brasiliensis (Linnaeus, 1758) (Lagomorpha: Leporidae) in Rio Grande do Norte state, Northeast Brazil. Check List, v. 12, n. 2, p. 1856, 15 mar. 2016. DOI: http://dx.doi.org/10.15560/12.2.1856.

PAGLIA, A. P. et al. Lista Anotada dos Mamíferos do Brasil / Annotated Checklist of Brazilian Mammals. Conservation International, Occasional Papers in Conservation Biology, n. 6, p. 1-76, 2012.

PERCEQUILLO, A. R. et al. Sylvilagus brasiliensis. Sistema de Avaliação do Risco de Extinção da Biodiversidade - SALVE, Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade - ICMBio, 2024. Disponível em: https://salve.icmbio.gov.br. Acesso em: 05 set. 2026. DOI: https://doi.org/10.37002/salve.ficha.23321.2.

REIS, N. R.; PERACCHI, A. L.; FREGONEZI, M. N.; ROSSANEIS, B. K. Mamíferos do Brasil: Guia de Identificação. 1. ed. Rio de Janeiro: Technical Books Editora, 2010. 

*Fotos de minha autoria.

  #CoelhoDoMato

 #Tapiti

 #SylvilagusBrasiliensis

  #FaunaDoRN

  #FaunaPotiguar

  #BiodiversidadeBrasileira

 #AnimaisDoNordeste

  #MataAtlantica

  #Animaisameaçados

  #Mastofauna

Nenhum comentário:

Postar um comentário