Bem-vindo!
Aqui compartilho meus registros da fauna e flora do Rio Grande do Norte, resultado de trilhas e expedições pelos diferentes biomas do estado, transformando essa vivência em conhecimento aplicado à educação ambiental.
O Besourinho-da-Mata: Um dos menores beija-flores do Brasil cabe na palma da sua mão
Andando na mata você
já ouviu o “zumbido de uma abelha” passar rápido pelo seu ouvido e, ao olhar,
percebeu que era na verdade uma ave? Pois esse truque da natureza é exatamente
o que faz o beija-flor conhecido como besourinho-da-mata ou rabo-branco-rubro.
Seu nome científico é Phaethornis ruber (Linnaeus, 1758), e ele pertence
à família Trochilidae, da qual também fazem parte por exemplos, o beija-flor-tesoura (Eupetomena macroura) e besourinho-de-bico-vermelho( Chlorostilbon lucidus ).
Com
apenas 7,5 a 9 cm de comprimento e peso máximo registrado de 2,4 g, o rabo-branco-rubro.(Phaethornis ruber )ostenta o título de menor espécie do gêneroPhaethornis . A
cauda é relativamente curta, com as retrizes centrais pouco prolongadas
(diferente do prolongamento mais típico de outras espécies do gênero). Possui
pontas ferrugíneas claras nas retrizes (não brancas, como muitas espécies do
gênero). O uropígio e as partes inferiores apresentam coloração ferrugínea
viva, marcante e inconfundível.
P. ruber apresenta
dimorfismo sexual perceptível na cauda. Os machos adultos diferenciam-se das
fêmeas e dos indivíduos juvenis por possuírem a cauda mais curta e retrizes
quase totalmente desprovidas de marginações latero-apicais ferrugíneas. Os
machos também exibem uma faixa preta marcante ao longo do peito ao contrário da
fêmea que possui de forma bem sutil ou é ausente.
História
natural
A
dieta do besourinho-da-mata(P. ruber) é predominantemente nectarívora, mas ele não
dispensa uma proteína como fonte extra incluindo pequenas aranhas e insetos em
seu cardápio. Ele forrageia no estilo trapline, percorrendo rotas relativamente
fixas entre flores conhecidas, geralmente a baixa altura, deslocando-se sempre
sozinho. Quando voa, emite um zumbido agudo, semelhante ao de uma grande abelha
mangangava(que vulgarmente muitos leigos chamam de besouro, daí a origem do
nome popular besourinho-da-mata).
A
reprodução é um espetáculo à parte. Os machos se juntam em lek, onde vocalizam
incansavelmente e executam um comportamento rítmico de subir e descer a cauda.
O ritual de corte vai além: o macho realiza um voo do tipo pêndulo horizontal,
lento e silencioso, pouco acima e à frente da fêmea pousada. Em cada extremo do
pêndulo, vira o corpo para fora, mantendo a cauda levantada diante da visão da
fêmea.
O
ninho, construído pela fêmea, tem a sua estrutura no formato de cone invertido,
exibindo um revestimento interno de paina e uma camada externa de folhas secas,
musgos e liquens, aderidos a uma folha
pendente através de fios de teia de aranha. Já foi registrado um ninho suspenso
sob uma folha de helicônia. Naquele são postos dois ovos, com incubação de 17
dias. Os filhotes permanecem no ninho por 18 a 22 dias após a eclosão. Os
filhotes emplumados, curiosamente, têm coloração tão parecida com a do próprio
ninho que praticamente desaparecem dentro dele. A reprodução pode ocorrer ao
longo de quase todo o ano, variando conforme a região.
Apesar
do tamanho diminuto, são aves destemidas: quando alguém se aproxima do ninho, o
besourinho-da-mata chega bem perto, sem demonstrar muito receio. Geralmente mantem
um poleiro fixo no interior da mata, de onde cantam com frequência, sendo seu
canto descrito como um "si-sí-sí-sísisisisisi" repetido.
Habitat,
ocorrência e distribuição geográfica
O besourinho-da-mata(P. ruber) é uma espécie residente no Brasil, que demonstra uma
plasticidade ecológica considerável, habitando desde formações florestais
densas até áreas abertas e antropizadas. Seu nicho ecológico abrange
predominantemente o interior e as bordas de florestas úmidas e semidecíduas,
estendendo-se para ecótonos e formações do bioma Cerrado, tais como matas de
galeria, matas ciliares e savanas arborizadas.
Em
termos de distribuição geográfica, a espécie está presente desde as Guianas e
Venezuela até a Bolívia, ocorrendo em todo o Brasil com exceção da região Sul.
Durante as minhas excursões pelo estado do Rio Grande do Norte, registrei essa espécie apenas na mesorregião Leste Potiguar, no bioma Mata Atlântica.
Considerações
finais
Tão
pequeno que quase some entre as folhas, o besourinho-da-mata poliniza,
equilibra e anima os ambientes por onde passa e depende diretamente da
manutenção de fragmentos florestais para continuar fazendo isso.
Você já viu esse beija-flor durante suas trilhas ou
expedições? Conta nos comentários.
Se
este post despertou sua curiosidade sobre a fauna do RN, compartilhe com alguém
que ainda não conhece esse minúsculo prodígio das nossas florestas. Siga o blog
“Fauna e Flora do RN” e nos ajude a mostrar que a biodiversidade potiguar é riquíssima.
Referências
FAVRETTO, M. A. Aves do
Brasil, vol I: Rheiformes a Psittaciformes. Florianópolis, 2021. 596 p. :
il.
LIMA, L. M. Aves da
Mata Atlântica: riqueza, composição, status, endemismos e conservação.
2013. 513 f. Dissertação (Mestrado em Ciências) - Universidade de São Paulo,
São Paulo, 2013.
LIMA, Pedro Cerqueira. Aves
do litoral norte da Bahia. 1. ed. Bahia: AO, 2006.
PERLO, Ber van. A Field
Guide to the Birds of Brazil. Princeton: Princeton University Press, 2009.
PIACENTINI, V. Q. et al.
Annotated checklist of the birds of Brazil by the Brazilian Ornithological
Records Committee / Lista comentada das aves do Brasil pelo Comitê Brasileiro
de Registros Ornitológicos. Revista Brasileira de Ornitologia, v. 23, n.
2, p. 91–298, 2015.
SAGOT-MARTIN, F. et al. An
updated checklist of the birds of Rio Grande do Norte, Brazil, with comments on
new, rare, and unconfirmed species. Bulletin of the British Ornithologists’
Club, v. 140, n. 3, p. 218-298, 2020.
SICK, H. Ornitologia brasileira.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. 862 p.
SIGRIST, T. Avifauna
Brasileira: The avis brasilis field guide to the birds of Brazil. 1. ed.
São Paulo: Editora Avisbrasilis, 2009.
Você já ouviu um “fogo-apagou”
ecoando no campo seco ou no quintal de casa e ficou tentando descobrir de onde
vinha aquele som?
A rolinha-fogo-apagou (Columbina squammata (Lesson, 1831), família
Columbidae), também conhecida como rolinha-cascavelinha(variação de rolinha-cascavel),
rolinha-carijó, rola-pedrês, paruru e até “felix-cafofo”, é uma presença
constante em áreas abertas do Brasil.
Descrição morfológica(características
principais)
Com cerca de 18 a 22 cm de
comprimento total e peso variando de 48 a 60 gramas, essa rolinha chama atenção
pela plumagem de aspecto escamado(bordas escuras das penas), sendo a coloração
superior predominantemente cinza-arenosa e a parte inferior esbranquiçada. As
rêmiges(penas responsáveis pelo voo) apresentam tonalidade rufescente(ferrugíneo),
bem visível em voo, e os lados da cauda são brancos. A cauda é relativamente
longa e pode ser aberta em leque. Não há dimorfismo sexual, ou seja, machos e
fêmeas são semelhantes na aparência.
História natural e importância
ecológica
Desloca-se em casais ou pequenos
bandos e forrageia diretamente no solo. Sua alimentação é variada: consome
sementes, pequenas frutas, insetos como formigas e até pequenos moluscos
(Gastropoda: Pupilla). Entre os vegetais registrados em sua dieta estão
gêneros como Cereus, Croton, Euphorbia, Melocactus,
Passiflora, Portulaca e Sida dentre outros.
Na cadeia alimentar, também ocupa
o papel de presa, sendo predada por várias espécies como por exemplo, o caburé
(Glaucidium brasilianum), o falcão-de-coleira (Falco femoralis) e
a cobra-bicuda.
Reprodução
O período reprodutivo dessa ave
pode ocorrer quase o ano inteiro e o macho vocaliza durante o dia. Seu canto
trissilábico, descrito como “u-gú-gú” ou “fogo-apagou”, é uma das marcas
sonoras mais conhecidas da espécie, daí a origem do seu principal nome popular.
Outro nome vulgar tem origem no som forte e vibrante das asas durante o voo que
se assemelha ao “chocalho de uma cascavel”, característica que originou o nome
“rolinha-cascavel”.
Na corte, o macho inclina o corpo
horizontalmente diante da fêmea, ergue a cauda na vertical abrindo-a em leque e
pode trocar carícias com o bico.
O ninho, construído pelo macho, apresenta
a forma de uma pequena tigela feita de gravetos. A postura é de dois ovos
brancos puros, medindo cerca de 22 x 17 mm e pesando em média 3,5 g. A
incubação, realizada por ambos os adultos, dura cerca de 13 a 14 dias. Os
filhotes deixam o ninho entre 12 e 15 dias após a eclosão. A espécie pode se
reproduzir mais de uma vez ao ano.
Habitat, ocorrência e
distribuição geográfica
Espécie de origem nativa, residente
e independente de ambientes florestais densos, a rolinha-fogo-apagou vive em
campo seco, cerrado, restinga, áreas abertas, bordas de mata e próximo a zonas
urbanas.
Ela ocorre da Venezuela ao
Paraguai e Argentina (Misiones), estando presente em quase todo o Brasil, ocorrendo
em grande parte do território nacional. Está presente em extensas áreas do
Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul, além de ocupar porções significativas da
região Norte.
Durante as minhas excursões pelo estado do Rio Grande do Norte, tenho observado essa espécie tanto na Caatinga como na Mata Atlântica, nas mesorregiões Leste Potiguar, Agreste Potiguar, Central Potiguar e Oeste Potiguar.
Conclusão
Pequena e discreta à primeira
vista, a rolinha-fogo-apagou revela sua presença pelo canto repetido que ecoa
pelos campos e no ruído seco das asas que lembra o chocalho de uma cascavel.
Nos ambientes abertos do Brasil, ela é uma lembrança constante de que até as
espécies mais comuns guardam detalhes surpreendentes para quem observa com
atenção.
Você já ouviu o canto
“fogo-apagou” na sua cidade? Me diz aí nos comentários...
Se você gosta de conhecer mais
sobre as espécies que vivem no Rio Grande do Norte e no Brasil, continue
acompanhando o Fauna e Flora do RN e compartilhe este conteúdo com quem
também aprecia a natureza ao nosso redor.
Referências
FAVRETTO, M. A. Aves do Brasil, vol. I: Rheiformes a Psittaciformes. Florianópolis: [s. n.], 2021. 596 p.
LIMA, Pedro Cerqueira. Aves do litoral norte da Bahia. 1. ed. Bahia: AO, 2006.
PERLO, Ber van. A Field Guide to the Birds of Brazil. Princeton: Princeton University Press, 2009.
PICHORIM, Mauro et al. Guia de Aves da Estação Ecológica do Seridó. Natal: Caule de Papiro, 2016.
PICHORIM, M. et al. Pristine semi-arid areas in northeastern Brazil remain mainly on slopes of mountain ranges: a case study based on bird community of Serra de Santana. Tropical Zoology, [s. l.], v. 29, p. 189–204, 2016. Disponível em: https://doi.org/10.1080/03946975.2016.1235426. Acesso em: 28 fev. 2026.
SAGOT-MARTIN, F. et al. An updated checklist of the birds of Rio Grande do Norte, Brazil, with comments on new, rare, and unconfirmed species. Bulletin of the British Ornithologists’ Club, [s. l.], v. 140, n. 3, p. 218-298, 2020.
SICK, H. Ornitologia Brasileira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. 863 p.
SIGRIST, Tomas. Guia de Campo Avis Brasilis: Avifauna Brasileira. 4. ed. Vinhedo: Avisbrasilis, 2014.
SILVA, J. M. C. et al. Aves da Caatinga: status, uso do hábitat e sensitividade. In: LEAL, I. R.; TABARELLI, M.; SILVA, J. M. C. (ed.). Ecologia e Conservação da Caatinga. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2003.
Conheça a graúna, uma das aves mais emblemáticas do Nordeste brasileiro — dona de um canto forte e melodioso, beleza marcante e papel essencial na natureza.
🐦Introdução
A graúna é um pássaro da família Icteridae, da qual também fazem parte, por exemplo, as espécies conhecidas como encontro-de-ouro, a polícia-inglesa-do-sul e vira-bosta, dentre outras. A palavra graúna deriva do tupi "guira-una" que quer dizer "ave-preta", referindo-se exatamente a sua plumagem negra e de brilho intenso. Pronto pra conhecer melhor alguns aspectos bio-ecológicos dessa espécie?
🪶
Aparência e comportamento
Com cerca de 25 centímetros de comprimento
e pesando até 94 gramas, a graúna (Gnorimopsar chopi) é
inconfundível. Seu corpo é coberto por penas negras com brilho de seda,
o bico e os olhos também são pretos, dando a ela um ar elegante e misterioso.
Essas aves vivem sozinhas, em casais ou em
pequenos grupos, mas fora do período reprodutivo podem formar bandos com
mais de 100 indivíduos! Costumam se alimentar no solo, onde procuram
insetos, sementes, frutas e até néctar de flores.
🌍 Onde
encontrar
A graúna (G. chopi) está espalhada por grande parte da
América do Sul, ocorrendo no Peru, Bolívia, Paraguai, Argentina, Uruguai
e em praticamente todo o Brasil — desde o Rio Grande do Sul até o Pará, Mato
Grosso e Rondônia.
No Nordeste, especialmente no Rio Grande do Norte, ela
é relativamente rara, possivelmente devido à captura ilegal e venda em feiras livres, já que é muito apreciada por criadores pelo seu
canto marcante. Em algumas regiões, essas capturas têm causado uma redução drástica das populações locais,
tornando a graúna uma presença cada vez mais difícil de ser observada livremente
na natureza potiguar. Durante as minhas excursões pelo estado do Rio Grande do Norte, observei essa espécie nas mesorregiões Agreste Potiguar e Central Potiguar, ou seja, principalmente no bioma Caatinga, as observações em áreas pertencentes ao bioma Mata Atlântica me parecem ter sido provenientes de soltura. Assim como o concriz, a graúna é uma ave nativa da fauna brasileira e também uma espécie semi-dependente de ambientes florestais.
Importante
ressaltar que a captura, comercialização e criação de animais silvestres
brasileiros, como a graúna, são práticas ilegais previstas na Lei nº
9.605/1998, conhecida como Lei de Crimes Ambientais, que em seu artigo 29
proíbe essas ações sob pena de detenção e multa. Essa legislação visa proteger
a fauna brasileira e coibir o tráfico de animais silvestres, que é uma das
maiores ameaças às populações naturais dessas espécies. As únicas exceções
de manejo da fauna brasileira são para profissionais autorizados, como biólogos
e médicos veterinários, que realizam estudos como por exemplos levantamentos ou
monitoramentos de fauna mediante prévia licença ou autorização concedida pelos
órgãos ambientais competentes (como IBAMA ou órgãos estaduais).
🌱
Importância ecológica
A graúna é uma ave onívora que tem papel fundamental na manutenção
do equilíbrio ambiental, pois ao se alimentar de insetos, deve contribuir
para o controle biológico de pragas agrícolas. Quando consome frutas
e sementes, atua como potencial dispersora de plantas nativas,
ajudando na regeneração da vegetação. Essas funções tornam a graúna uma aliada
natural dos agricultores e do meio ambiente.
🔍
Curiosidades sobre a graúna
O canto da graúna é considerado um dos mais fortes e melodiosos
do Brasil. Quando várias delas cantam juntas, o som é simplesmente
impressionante.
Seus ninhos podem ser feitos em ocos de árvores,
cupinzeiros, barrancos, ninhos abandonados ou até canos de PVC.
Os filhotes recebem cuidados tanto dos pais quanto de outros
adultos ajudantes.
Entre seus predadores registrados destaca-se a cobra-cipó (Philodryas
olfersii), que pode atacar ninhos.
Infelizmente, a graúna é muito capturada para o tráfico de aves,
e muitas não sobrevivem devido aos maus-tratos.
👉Você já viu a graúna ou ouviu o seu canto? Conte sua experiência
nos comentários!
💚 Um símbolo
da avifauna nordestina
Mais do que um pássaro de beleza marcante, a
graúna representa a força e a harmonia dos ecossistemas brasileiros.
Proteger essa espécie é também preservar o som e a vida dos nossos campos e
matas.
💬 Se você também se
encanta com a natureza, compartilhe este artigo com seus amigos e ajude
a espalhar o amor pela nossa fauna! 🐦🌿
Referências
LAGOS, Adriano Rodrigues et al. Guia de aves: da área de influência da Usina Hidrelétrica de Batalha. Rio de Janeiro: FURNAS, 2018.
FAVRETTO, Mario Arthur. Aves do Brasil, vol. II: Passeriformes. Florianópolis: Mario Arthur Favretto, 2023.
LIMA, Pedro Cerqueira. Aves do litoral norte da Bahia. 1. ed. Bahia: AO, 2006.
PIACENTINI, V. Q. et al. Annotated checklist of the birds of Brazil by the Brazilian Ornithological Records Committee / Lista comentada das aves do Brasil pelo Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos. Revista Brasileira de Ornitologia, v. 23, n. 2, p. 91–298, 2015.
PICHORIM, M.; OLIVEIRA, D. V.; OLIVEIRA-JÚNIOR, T. M.; CÂMARA, T. P. F.; NASCIMENTO, E. P. G. Pristine semi-arid areas in northeastern Brazil remain mainly on slopes of mountain ranges: a case study based on bird community of Serra de Santana. Tropical Zoology, v. 29, p. 189–204, 2016. DOI: 10.1080/03946975.2016.1235426.
SICK, H. Ornitologia brasileira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. 862 p.
SIGRIST, T. Avifauna Brasileira: The avis brasilis field guide to the birds of Brazil. 1. ed. São Paulo: Editora Avisbrasilis, 2009.
SILVA, J. M. C. et al. Aves da Caatinga: status, uso do habitat e sensitividade. In: LEAL, I. R. et al. (Eds). Ecologia e conservação da Caatinga. Recife: Editora Universitária/UFPE, 2003.
Polinização: Um Serviço da Natureza Essencial para a Vida no Planeta e a
Produção de Alimentos
O polinizador transporta o pólen até o estigma da flor, onde germina e permite a fecundação no ovário...
A polinização consiste no transporte de grãos
de pólen dos órgãos reprodutivos masculinos para os femininos das flores,
constituindo um mecanismo fundamental para a reprodução vegetal que culmina naprodução de frutos e sementes. Este processo representa um serviço
ecossistêmico multifacetado, abrangendo funções regulatórias, de provisão e
culturais, caracterizando-se como uma interação ecológica de amplos benefícios
para a humanidade. Estes incluem a preservação e promoção da diversidade
genética em populações vegetais nativas, sustentando a biodiversidade e as
funções ecossistêmicas, a garantia de fornecimento sustentável e diversificado
de produtos como frutos, sementes, mel e derivados, além da valorização de
conhecimentos tradicionais e aspectos culturais associados (IPBES 2016;
Costanza et al. 2017).
O valor econômico global dos serviços de
polinização evidencia sua importância estratégica, especialmente na produção
alimentar. Estimativas apontam que esse serviço ecossistêmico movimenta entre
US$ 235 bilhões e US$ 577 bilhões anualmente em escala mundial (IPBES 2016).
Enquanto no Brasil estima-se que o serviço de polinização contribuía
diretamente com cerca de R$ 43 bilhões por ano em valor agregado conforme dados
de 2018 (Freitas et al.,2023).
A reprodução da maioria das espécies vegetais,
tanto cultivadas quanto silvestres, depende da polinização zoófila(por
animal). Os principais agentes polinizadores são predominantemente
insetos, incluindo abelhas, coleópteros(besouros), dípteros(moscas),
lepidópteros (borboletas e mariposas) e vespas. Porém também existem
vários animais vertebrados que atuam como polinizadores, como algumas aves,
quirópteros (morcegos), mamíferos terrestres e répteis como lagartos. Dentre
todos os animais as abelhas destacam-se como o grupo de polinizadores de maior
relevância agrícola, isso porque elas visitam mais de 90% das 107 principais
culturas agrícolas mundiais já catalogadas cientificamente (Klein et al. 2007).
O desaparecimento das
abelhas seria um golpe profundo na biodiversidade e na segurança alimentar. Sem
polinização, muitas plantas deixariam de se reproduzir, afetando ecossistemas
inteiros e ameaçando a subsistência humana.
A variedade de Polinizadores no Rio Grande do Norte: Mais do que um
Espetáculo Natural
Diversidade de polinizadores: abelhas, besouros, aves, morcegos e muito mais.
Quando percorremos as paisagens do Rio Grande
do Norte, desde as áreas mais áridas da Caatinga até os remanescentes de Mata
Atlântica, é impossível não se impressionar com a intensa atividade dos
polinizadores. Abelhas nativas zumbem entre as flores de diversas plantas,
beija-flores voam velozes de flor em flor , borboletas dançam sobre a vegetação
ripária em busca de néctar, e muitos morcegos desempenham seu papel silencioso
durante a noite. Esta diversidade de interações não é apenas bela de se observar
– ela é fundamental para a sobrevivência dos ecossistemas e da
agricultura.
O Rio Grande do Norte está inserido numa das
regiões mais biodiversas do planeta, os Neotrópicos, mas essa riqueza muitas
vezes passa despercebida. Os polinizadores do Rio Grande do Norte são
verdadeiros "viajantes" entre diferentes mundos vegetais. Eles
transitam por pelo menos seis tipos distintos de vegetação em terras
potiguares, cada um oferecendo recursos únicos. Essa mobilidade entre habitats
é crucial – muitas espécies dependem de plantas específicas para diferentes
necessidades: algumas fornecem néctar de alta qualidade, outras pólen rico em
proteínas, e algumas ainda servem como locais de nidificação. A natureza
terrestre e semi-arborícola de muitos polinizadores locais é particularmente
fascinante. Eles conseguem explorar desde o chão da Caatinga até o dossel da
Mata Atlântica, aproveitando microhabitats que passariam despercebidos por
espécies menos versáteis. Cada grupo ocupa nichos específicos, aproveitando
recursos florais em diferentes horários e alturas da vegetação.
Sabe-se que diversas espécies polinizadoras —
ou com potencial para tal — ocorrem em território potiguar. Entre os
vertebrados, destacam-se os morcegos e as aves. Dentre os quirópteros, o
morcego-beija-flor (Glossophaga soricina) atua na polinização de plantas
como a pata-de-vaca (Bauhinia sp.) e o xique-xique (Pilosocereus
gounellei). Outras espécies relevantes de morcegos polinizadores incluem Lonchophylla mordax e Xeronycteris
vieirai, esta última endêmica da Caatinga, associada à polinização do
xique-xique (Pilosocereus gounellei) e do mandacaru (Cereus jamacaru).
beija-flor-de-garganta-verde e beija-flor-de-barriga-branca visitando flores
Entre os
invertebrados, o Rio Grande do Norte abriga uma diversidade magnífica, com
destaque especial para as abelhas. A espécie Apis mellifera desempenha
papel fundamental na polinização de culturas agrícolas como caju (Anacardium
occidentale), café (Coffea arabica), maçã (Malus domestica),
melão (Cucumis melo) e soja (Glycine max), entre outras de
interesse econômico.
abelhas exóticas( A. mellifera) coletando pólen e possivelmente participando da polinização
A abelha
jandaíra (Melipona subnitida) também poliniza o caju, além de goiaba (Psidium
guajava), pimentão (Capsicum annuum), catanduva(Pityrocarpa moniliformis), jurema-preta (Mimosa tenuiflora), marmeleiro e jucá. Já
a uruçu (Melipona scutellaris) está associada à polinização do abacate (Persea
americana), pimentão, pitanga (Eugenia uniflora) e canafístula,
entre outras espécies. A arapuá (Trigona spinipes) visita flores de
abóbora (Cucurbita moschata), caju, girassol (Helianthus annuus),
laranja (Citrus sinensis), melancia (Citrullus lanatus) e
tamarindo (Tamarindus indica), entre muitas outras. A mamangava-pardinha
(Centris aenea) é polinizadora da acerola (Malpighia emarginata),
caju, goiaba e tamarindo. A mamangava-de-toco (Xylocopa grisescens) atua
na polinização do maracujá-amarelo (Passiflora edulis), enquanto Eulaema
nigrita visita o maracujá-doce (Passiflora alata), o
maracujá-amarelo, urucum (Bixa orellana) e pau-d’arco (Tabebuia aurea),
entre outras espécies.
Abelhas nativas participando da polinização
Além das
abelhas, os besouros ocupam posição de destaque entre os insetos polinizadores,
sendo o quarto grupo mais relevante nesse papel e o segundo mais frequente
visitante de flores em regiões tropicais, conforme apontado por Bawa (1990) e
Ollerton (2017). Estima-se que estejam diretamente envolvidos na reprodução de
cerca de 2.000 espécies de angiospermas. No Brasil, pequenos besouros das
famílias Chrysomelidae, Curculionidae, Nitidulidae e Staphylinidae,
além de escarabeídeos da tribo Cyclocephalini, atuam como
polinizadores especializados de palmeiras, anonáceas e aráceas, tanto em
ecossistemas naturais quanto em áreas agrícolas.
besouros com potencial de polinização visitando flores
O Papel Fundamental dos Polinizadores:
Ecologia, Agricultura e Sustentabilidade
Os polinizadores desempenham um papel vital na
manutenção da saúde e estabilidade dos ecossistemas. Eles são responsáveis pela
reprodução de mais de 75% das plantas com flores, o que é essencial para
sustentar a biodiversidade e apoiar os sistemas de produção de alimentos. A
presença de polinizadores facilita a reprodução das plantas, resultando na
produção de frutos, sementes e outros materiais vegetais que são cruciais tanto
para a vida selvagem quanto para a dieta humana.
As contribuições ecológicas dos polinizadores
vão além da mera reprodução; eles melhoram significativamente a saúde do
ecossistema. Ao facilitar a reprodução das plantas, os polinizadores ajudam a
sustentar habitats para várias espécies, que dependem de plantas com flores
para alimentação e abrigo. Uma única espécie de abelha pode polinizar dezenas
de espécies vegetais diferentes, que por sua vez alimentam e abrigam centenas
de outras espécies animais. O declínio das populações de polinizadores pode ter
efeitos em cascata em ecossistemas inteiros, afetando não apenas as plantas que
polinizam, mas também as inúmeras espécies que dependem dessas plantas para
sobreviver.
Uma única espécie de abelha pode polinizar dezenas de plantas.
Talvez mais importante ainda seja sua
contribuição para a diversidade genética das plantas. Polinizadores eficazes
garantem que as plantas troquem material genético entre populações distantes,
aumentando a variabilidade e a capacidade de adaptação às mudanças ambientais e
resistência a “pragas”. Em tempos de mudanças climáticas aceleradas, essa
função se torna ainda mais crítica.
Em termos de produção de alimentos, os
polinizadores são parte integrante das práticas agrícolas, pois aproximadamente
35% das culturas alimentares do mundo, incluindo frutas, vegetais e nozes
essenciais, dependem de polinizadores para uma reprodução bem-sucedida. Estudos
mostram resultados impressionantes em propriedades que investem na presença de
abelhas nativas. Culturas como soja e algodão mostram aumentos significativos
de produtividade quando há polinizadores eficientes trabalhando. A diferença não
está apenas na quantidade de frutos produzidos, mas também na qualidade – isso
deve-se ao aumento da polinização cruzada e redução na taxa de abortamento
floral.
Práticas agrícolas sustentáveis têm se mostrado essenciais para a preservação dos polinizadores, ao mesmo tempo em que mantêm a produtividade dos sistemas agrícolas. Estratégias como o cultivo de plantas floríferas e a conservação de áreas naturais favorecem a presença desses agentes ecológicos, promovendo benefícios como controle biológico de pragas, melhoria da fertilidade do solo e valorização comercial dos produtos agrícolas.
Os números da economia dos polinizadores são
impressionantes. Embora os dados específicos para o Rio Grande do Norte ainda
não sejam contabilizados, sabemos que o valor dos serviços de polinização no
Brasil chega a bilhões de reais anuais. No Sul do país, estados como Santa
Catarina registraram R$ 40,9 bilhões em produção agrícola em 2020, com uma
parcela significativa dependente dos serviços de polinização realizados por
abelhas.
Nesse contexto, a apicultura vem ganhando destaque não apenas pela produção de mel, mas também pelo papel que desempenha na manutenção dos serviços ecossistêmicos. Apicultores que investem em manejo responsável — como a apicultura migratória — e mantêm boas redes de colaboração conseguem colônias mais saudáveis, maior produtividade e oportunidades comerciais vantajosas. Além disso, essas práticas contribuem diretamente para a conservação ambiental e fortalecem a economia rural.
Apicultura contribui para polinização de plantas da região
A atividade apícola, portanto, representa uma alternativa estratégica para o desenvolvimento sustentável. Ao garantir a polinização das lavouras e oferecer produtos de valor agregado, apicultores experientes impulsionam a renda familiar e promovem a saúde dos ecossistemas. A adoção de técnicas adequadas de manejo e conservação não apenas melhora os resultados financeiros, como também assegura a continuidade dos serviços ecológicos fundamentais para a agricultura e a biodiversidade.
Os Desafios da Conservação: O Conhecimento Que Falta e as Ameaças
Imediatas
Agora chegamos em ponto crítico e preocupante:
ainda sabemos muito pouco sobre nossos polinizadores. Existem algumas lacunas
significativas de conhecimento sobre sua distribuição e papéis ecológicos no
RN, especialmente quando comparamos com o que sabemos sobre polinizadores de
regiões temperadas.
As avaliações de conservação são urgentes não
apenas por uma questão acadêmica, mas por necessidade prática. A perda contínua
de habitats devido às atividades humanas acontece muito mais rapidamente do que
nossa capacidade de estudar e entender essas espécies e suas relações com as
plantas. É como tentar catalogar uma biblioteca enquanto ela está pegando fogo.
Logo, se faz necessário ações imediatas de conservação para manter o equilíbrio
ecológico e garantir a sobrevivência das populações de polinizadores.
Infelizmente, as populações de polinizadores
no Rio Grande do Norte e em nível global enfrentam pressões crescentes. O
declínio dessas espécies não é apenas uma questão ambiental abstrata – tem
consequências econômicas diretas, especialmente para pequenos agricultores que
dependem da polinização natural para suas colheitas.
Desmatamento resulta em perda de habitat para polinizadores.
A urbanização, a expansão agrícola e o
desmatamento resultaram em considerável perda de habitat para os polinizadores.
À medida que os ambientes naturais são substituídos por estruturas artificiais
ou monoculturas, os habitats restantes tornam-se fragmentados, isolando as
populações de polinizadores. Essa fragmentação não apenas reduz a
disponibilidade de alimentos e locais de nidificação, mas também diminui a
diversidade genética, tornando essas populações mais vulneráveis à extinção.
O uso de pesticidas, particularmente
neonicotinóides, representa uma grande ameaça para os polinizadores. Esses
produtos químicos podem ser tóxicos, mesmo em doses subletais, prejudicando a
capacidade de forrageamento, navegação e reprodução. A exposição a pesticidas
pode enfraquecer o sistema imunológico dos polinizadores, tornando-os mais
suscetíveis a doenças e contribuindo ainda mais para seu declínio.
Abelha morta
As mudanças climáticas afetam
significativamente as populações de polinizadores por meio de padrões alterados
de temperatura e precipitação. Essas mudanças podem interromper o momento da
floração e a atividade dos polinizadores, criando incompatibilidades que
impedem a polinização bem-sucedida. Por exemplo, algumas plantas podem
florescer mais cedo devido a temperaturas mais altas, deixando os polinizadores
sem fontes de alimento quando emergem.
Além disso, o aumento das temperaturas está
ligado ao declínio de espécies específicas, como as abelhas, que viram as
populações diminuírem em quase 50% desde a década de 1970 na América do Norte.
Se não tomarmos medidas urgentes, poderemos ver cenários similares no Nordeste
brasileiro.
Espécies invasoras, incluindo pragas e doenças
nocivas, representam riscos significativos para os polinizadores nativos. Por
exemplo, o ácaro Varroa é conhecido por devastar as populações de abelhas,
enquanto outras espécies não nativas podem superar a flora local, reduzindo os
recursos disponíveis para os polinizadores. Além disso, os organismos
causadores de doenças podem se espalhar das espécies invasoras para
polinizadores nativos, exacerbando os estressores existentes, como perda de
habitat e exposição a pesticidas.
Caminhos para a Conservação: Ação Urgente e Soluções Inovadoras para
Garantir o Futuro
O declínio das populações de
polinizadores representa uma ameaça a diversos serviços ecossistêmicos, levando
a várias iniciativas voltadas para sua preservação. A aprovação de leis como a
Lei de Salvamento dos Polinizadores da América de 2023 mostra que é possível
criar marcos regulatórios eficazes. Essa legislação visa suspender o uso de
pesticidas neonicotinóides nocivos e estabelecer conselhos de proteção aos
polinizadores. No Brasil, embora existam iniciativas regulatórias e projetos de
lei em alguns estados, ainda carecemos de uma legislação nacional robusta e
específica voltada à proteção dos polinizadores. As partes interessadas locais
e os formuladores de políticas públicas no estado do Rio Grande do Norte devem
ser incentivadas a adotar medidas legislativas semelhantes para promover
práticas sustentáveis que protejam também os polinizadores.
Paisagem com vista parcial da vegetação de Caatinga e Serra Sr. João em Cerro Corá(RN), área que faz parte do Refúgio de Vida Silvestre Serra das Araras.
Além das ações legislativas, há uma forte
ênfase na restauração e gestão de habitats. Os conservacionistas defendem a
criação de áreas protegidas, o que de fato é essencial, como o proposto Refúgio de Vida Silvestre Serra
das Araras(no caso do RN), que visa salvaguardar habitats críticos para
polinizadores, outros animais ameaçados de extinção e promover o
desenvolvimento sustentável. Mas a conservação daqueles não pode se limitar exclusivamente às áreas de unidades de conservação – precisa ser integrada na paisagem produtiva. A
implementação de práticas agrícolas favoráveis aos polinizadores exige a
participação do poder público e privado em parceria com a comunidade local,
contribuindo para a construção de planos de ação alicerçados na
sustentabilidade e conservação das espécies polinizadoras. Por exemplo,
programas que reconhecem e certificam fazendas por suas práticas amigáveis aos
polinizadores não apenas beneficiam o meio ambiente, mas também criam
oportunidades de mercado para produtores conscientes. Outrossim, o
monitoramento das populações de polinizadores e suas interações com o
ecossistema será essencial para avaliar a eficácia das práticas implementadas,
contribuindo para tomada de futuras decisões em relação ao manejo daquelas
espécies e das culturas agrícolas por elas polinizadas.
Através desses esforços conjuntos de
conservação, o Rio Grande do Norte tem potencial para se tornar um modelo de
coexistência entre desenvolvimento econômico e conservação da biodiversidade. A
proteção das espécies polinizadoras não é apenas uma questão ambiental – é uma
questão de segurança alimentar, estabilidade econômica e sustentabilidade a
longo prazo.
O desafio é grande, mas não impossível.
Precisamos de mais pesquisa, mais conscientização, mais políticas públicas
adequadas e, principalmente, mais ação coordenada entre todos os setores da
sociedade. Os polinizadores do Rio Grande do Norte e do mundo merecem – e
precisam – do nosso melhor esforço. Afinal, seu futuro está diretamente ligado
ao nosso.
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Referências de Imagens não autorais
Abelha no néctar da flor amarela
Foto de Pixabay. Disponível em:
Joaninha sobre flor amarela
Foto de József Szabó, disponível em:
Beija-flor voando sobre flor
Foto de Richard Sagredo, disponível em:
Morcego Foto de Birger Strahl, disponível em:
Apicultor com abelhas
Imagem de Michael Strobel por Pixabay. Disponível em:
Desmatamento – toco de árvore
Imagem de Hans por Pixabay. Disponível em:
Abelhas mortas por pesticidas
Imagem de rostichep por Pixabay. Disponível em: