sábado, 5 de setembro de 2026

Coelho-do-mato no RN: ele ainda existe, mas por que é tão raro de ver?

Você sabia que o Brasil tem um coelho nativo, silencioso e tão discreto que muita gente vive a vida inteira sem cruzar com um? Pois é, ele existe, e atende por vários nomes populares: tapiti, coelho-do-mato, candimba, candinha e tapotim. Na ciência, é chamado de Sylvilagus brasiliensis, da família Leporidae, a mesma dos coelhos e lebres em geral, mas com uma história bem particular escrita em solo brasileiro. O nome "tapiti", inclusive, vem do tupi-guarani e significa "pelo branco na barriga", uma referência direta a uma das marcas mais características dele. 
Coelho-do-mato (Sylvilagus brasiliensis) em solo aberto no Agreste Potiguar, mostrando o corpo marrom-amarelado e orelhas curtas.

Um coelho de orelhas curtas e olhos grandes


Comparado à lebre-europeia, o tapiti é bem menor: tem de 20 a 40 cm de comprimento de corpo, uma cauda quase imperceptível medindo entre 1 e 6 cm e pode pesar até 1,2 kg. As orelhas são relativamente curtas, enquanto os olhos são grandes e escuros, as narinas são flexíveis, características que ajudam bastante um animal que precisa estar sempre atento ao que se move ao redor.

A pelagem é densa, curta e de coloração marrom-amarelada no dorso enquanto no ventre é mais clara, num contraste que funciona como camuflagem entre a vegetação. As patas também contam uma história de adaptação: os membros anteriores são mais curtos e têm cinco dedos, enquanto que os posteriores são mais longos, com quatro dedos, uma estrutura que favorece os saltos rápidos e as fugas em ziguezague quando diante de um possível predador.
Vista superior de um coelho-do-mato (Sylvilagus brasiliensis) mostrando a pelagem densa e mesclada do dorso.


Há ainda um detalhe que ajuda a diferenciar essa espécie de outros coelhos sul-americanos: as fêmeas, maiores que os machos, possuem três pares de mamas, sendo essa uma característica distintiva dela.

Vida solitária, à sombra da mata


O tapiti não é um animal de rotina fácil de flagrar: tem hábitos solitários, crepusculares e noturnos, e durante o dia prefere se esconder sob raízes expostas, dentro de troncos ou por baixo da vegetação densa. É nas áreas de transição e nos bosques com trechos mais abertos que ele costuma circular, sempre alerta, já que serve de presa para répteis, aves e mamíferos. Quando percebe uma ameaça, ele primeiro congela, fica completamente imóvel antes de sair correndo, podendo dar o primeiro salto com mais de 1 metro de distância.

Na alimentação, o cardápio desse coelho é bastante variado: gramíneas e vegetais tenros são a base, complementados por talos, folhas, raízes, frutos e sementes, tanto do sub-bosque quanto de áreas abertas. Essa flexibilidade alimentar é um dos motivos que explicam por que os leporídeos, como grupo, conseguem ocupar ambientes tão diversos.
Coelho-do-mato (Sylvilagus brasiliensis) parcialmente escondido e camuflado no meio de capim seco.


Quanto à reprodução, o tapiti não perde tempo: pode procriar durante o ano inteiro. A gestação dura entre 30 e 45 dias e cada ninhada traz de 2 a 7 filhotes, que nascem em um ninho cavado no chão pela própria fêmea. O desenvolvimento é rápido, no qual os filhotes abrem os olhos já na primeira semana de vida, deixam o ninho na segunda semana, tornam-se independentes em cerca de um mês e atingem a maturidade sexual aos 3 meses, embora costumem acasalar com mais frequência somente depois de completar um ano. Vale notar que essa espécie não demarca território, mas defende o ninho com afinco enquanto os filhotes ainda dependem dele.

Onde encontrar o tapiti


Atualmente, o tapiti (Sylvilagus brasiliensis) está restrito à região Nordeste do Brasil, mais especificamente ao Centro de Endemismo Pernambucano, dentro principalmente do bioma Mata Atlântica. É por lá que ele ocorre, nos estados da Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Ele ocorre bem por áreas de transição e bosques com trechos mais abertos, muitas vezes próximos a cursos d'água. Apesar dessa presença histórica na região, quem já foi um animal frequente tornou-se, com o tempo, mais raro e mais difícil de avistar. Curiosamente o primeiro registro documental publicado para essa espécie no RN foi no bioma Caatinga, município de João Câmara. 
Durante minhas excursões pelo estado do Rio Grande do Norte, tenho observado o coelho-do-mato (S. brasiliensis) em área com vegetação típica da Mata Atlântica e áreas de ecótono-transição entre a Mata Atlântica e a Caatinga, na mesorregião Agreste Potiguar. 
  

As ameaças por trás da raridade


O tapiti convive com pressões variadas. É caçado tanto para alimentação quanto por ser visto como praga em lavouras, já que consome frutos e hortaliças. Cães domésticos e atropelamentos também entram na lista de riscos que pesam sobre suas populações. Mas o problema mais estrutural é a perda de habitat: o desmatamento e a expansão de assentamentos humanos já destruíram 94,4% da cobertura florestal na área de distribuição da espécie. Some-se a isso a introdução da lebre-europeia no Brasil, que pode competir com o tapiti e contribuir para a queda de suas populações locais. Diante de todas  essas ameaças, pode-se considerar que ao menos em nível estadual a espécie deve encontra-se ameaçada de extinção atualmente.

E você, já viu um tapiti?


👉Já topou com um coelho-do-mato durante uma trilha, numa área de mata ou perto de casa? Conta sua experiência nos comentários!

Um vizinho silencioso que merece atenção


O coelho-do-mato é prova de que nem todo animal precisa ser grande ou vistoso para ter uma história rica. Discreto e adaptável, ele carrega um pedaço da nossa biodiversidade que corre o risco de virar apenas lembrança se a perda de habitat continuar avançando. 
Gostou de conhecer mais sobre esse coelho silvestre? Compartilhe este post, siga o Fauna e Flora do RN e ajude a espalhar essa história por aí!

Referências

DANTAS, Ana Raquel Carvalho; MENEZES, Fernando Heberson; SERRA, Kalyl Silvino; BARBOSA, Edja Daise Oliveira; FERNANDES-FERREIRA, Hugo. First record of Sylvilagus brasiliensis (Linnaeus, 1758) (Lagomorpha: Leporidae) in Rio Grande do Norte state, Northeast Brazil. Check List, v. 12, n. 2, p. 1856, 15 mar. 2016. DOI: http://dx.doi.org/10.15560/12.2.1856.

PAGLIA, A. P. et al. Lista Anotada dos Mamíferos do Brasil / Annotated Checklist of Brazilian Mammals. Conservation International, Occasional Papers in Conservation Biology, n. 6, p. 1-76, 2012.

PERCEQUILLO, A. R. et al. Sylvilagus brasiliensis. Sistema de Avaliação do Risco de Extinção da Biodiversidade - SALVE, Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade - ICMBio, 2024. Disponível em: https://salve.icmbio.gov.br. Acesso em: 05 set. 2026. DOI: https://doi.org/10.37002/salve.ficha.23321.2.

REIS, N. R.; PERACCHI, A. L.; FREGONEZI, M. N.; ROSSANEIS, B. K. Mamíferos do Brasil: Guia de Identificação. 1. ed. Rio de Janeiro: Technical Books Editora, 2010. 

*Fotos de minha autoria.

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sábado, 1 de agosto de 2026

A borboleta que repousa de asas abertas a 30°: conheça Panara jarbas

 

Borboleta Panara jarbas vista de cima com asas pretas abertas e faixas alaranjadas, repousando sobre uma folha verde.

Você já reparou que algumas borboletas pousam com as asas completamente abertas e o corpo levemente erguido, quase como se estivessem posando ao sol? Esse comportamento chama a atenção em Panara jarbas (Drury, 1782), uma borboleta exclusivamente brasileira(endêmica). Ela pertence à família Riodinidae, da qual também fazem parte, por exemplo, Aricoris campestris, Stalachtis phlegia e Nymphidium mantus.

Características principais

Panara jarbas é uma borboleta de porte médio, com envergadura de cerca de 44 mm. As asas apresentam coloração castanho-enegrecida. Na asa anterior, há uma larga faixa alaranjada que se estende da margem costal ao ângulo inferior. Na asa posterior, observa-se outra faixa alaranjada, mais estreita, posicionada próxima à extremidade do abdômen. As antenas, o tórax e o abdômen são predominantemente escuros, com pequenas estrias alaranjadas nas laterais do abdômen.

História natural

No litoral brasileiro, P. j. jarbas habita florestas subtropicais úmidas, tanto primárias quanto alteradas. Os machos costumam pousar, do final da manhã até o início da tarde, em clareiras iluminadas, pequenas áreas abertas e topos de morros. Nesses locais, permanecem sobre a face superior das folhas com as asas completamente abertas e o corpo elevado em aproximadamente 30° em relação à folha. As fêmeas são observadas com menor frequência e voam próximas ao solo, no interior da floresta.

Habitat, ocorrência e distribuição geográfica

A distribuição conhecida de Panara jarbas estende-se pelo leste do Brasil, desde o Rio de Janeiro até o Rio Grande do Norte, incluindo registros mais recentes para áreas do Semiárido da Bahia. A espécie também ocorre no interior até Goiás e, ao sul, no oeste de São Paulo e do Paraná, entre o nível do mar e cerca de 1.000 metros de altitude.

A subespécie nominal (P. j. jarbas) apresenta distribuição disjunta. Uma população ocorre na Serra da Carioca e na Serra do Mar, no oeste do estado do Rio de Janeiro, estendendo-se até o sudeste de Minas Gerais. Outra está presente na Zona da Mata, desde o litoral norte do Espírito Santo até o RN.

E você, já viu uma borboleta pousada assim, de asas bem abertas?

Conte nos comentários se você já encontrou essa espécie ou observou esse comportamento em outras borboletas da mata.

👉Se você gostou de conhecer essa borboleta, compartilhe este post para ajudar a divulgar espécies pouco conhecidas da nossa fauna. Aproveite também para seguir o Fauna e Flora do RN e descobrir outras curiosidades sobre a biodiversidade brasileira.

Referências

CALLAGHAN, C. J. A review of the genus Panara Doubleday, 1847 (Riodinidae) in southeast Brazil, with a description of two new subspecies. Journal of Research on the Lepidoptera, v. 34, p. 21–38, 1995-1997.

KERPEL, Solange Maria et al. Borboletas do Semiárido: conhecimento atual e contribuições do PPBio. In: BRAVO, Freddy; CALOR, Adolfo Ricardo (Org.). Conhecendo a fauna de invertebrados do Semiárido. Teresina: EDUFPI, 2014. cap. 19, p. 193–208.

LAMAS, G. (ed.). Atlas of Neotropical Lepidoptera. Checklist: Part 4A, Hesperioidea–Papilionoidea. Gainesville: Association for Tropical Lepidoptera/Scientific Publishers, 2004. 439 p.

sábado, 13 de junho de 2026

O menor beija-flor do RN cabe na palma da mão e você jura que é besouro

Beija-flor besourinho-da-mata (Phaethornis ruber), o menor beija-flor do RN, pousado de perfil em um galho fino. É possível observar seu bico longo curvado, plumagem ferrugínea no peito e a característica faixa preta na região ocular

O Besourinho-da-Mata: Um dos menores beija-flores do Brasil cabe na palma da sua mão

Andando na mata você já ouviu o “zumbido de uma abelha” passar rápido pelo seu ouvido e, ao olhar, percebeu que era na verdade uma ave? Pois esse truque da natureza é exatamente o que faz o beija-flor conhecido como besourinho-da-mata ou rabo-branco-rubro. Seu nome científico é Phaethornis ruber (Linnaeus, 1758), e ele pertence à família Trochilidae, da qual também fazem parte por exemplos, o beija-flor-tesoura (Eupetomena macroura) e  besourinho-de-bico-vermelho( Chlorostilbon lucidus )

Descrição morfológica (características principais)

Com apenas 7,5 a 9 cm de comprimento e peso máximo registrado de 2,4 g, o rabo-branco-rubro.(Phaethornis ruber ) ostenta o título de menor espécie do gênero Phaethornis A cauda é relativamente curta, com as retrizes centrais pouco prolongadas (diferente do prolongamento mais típico de outras espécies do gênero). Possui pontas ferrugíneas claras nas retrizes (não brancas, como muitas espécies do gênero). O uropígio e as partes inferiores apresentam coloração ferrugínea viva, marcante e inconfundível.

Fotografia detalhada das costas do beija-flor rabo-branco-rubro ou besourinho-da-mata posado de costas. Em destaque, a coloração marrom-ferrugínea viva do uropígio e o formato de sua cauda curta com retrizes escuras

 P. ruber apresenta dimorfismo sexual perceptível na cauda. Os machos adultos diferenciam-se das fêmeas e dos indivíduos juvenis por possuírem a cauda mais curta e retrizes quase totalmente desprovidas de marginações latero-apicais ferrugíneas. Os machos também exibem uma faixa preta marcante ao longo do peito ao contrário da fêmea que possui de forma bem sutil ou é ausente. 

História natural

A dieta do besourinho-da-mata(P. ruber) é predominantemente nectarívora, mas ele não dispensa uma proteína como fonte extra incluindo pequenas aranhas e insetos em seu cardápio. Ele forrageia no estilo trapline, percorrendo rotas relativamente fixas entre flores conhecidas, geralmente a baixa altura, deslocando-se sempre sozinho. Quando voa, emite um zumbido agudo, semelhante ao de uma grande abelha mangangava(que vulgarmente muitos leigos chamam de besouro, daí a origem do nome popular besourinho-da-mata).

A reprodução é um espetáculo à parte. Os machos se juntam em lek, onde vocalizam incansavelmente e executam um comportamento rítmico de subir e descer a cauda. O ritual de corte vai além: o macho realiza um voo do tipo pêndulo horizontal, lento e silencioso, pouco acima e à frente da fêmea pousada. Em cada extremo do pêndulo, vira o corpo para fora, mantendo a cauda levantada diante da visão da fêmea.

O ninho, construído pela fêmea, tem a sua estrutura no formato de cone invertido, exibindo um revestimento interno de paina e uma camada externa de folhas secas, musgos e liquens, aderidos a uma folha pendente através de fios de teia de aranha. Já foi registrado um ninho suspenso sob uma folha de helicônia. Naquele são postos dois ovos, com incubação de 17 dias. Os filhotes permanecem no ninho por 18 a 22 dias após a eclosão. Os filhotes emplumados, curiosamente, têm coloração tão parecida com a do próprio ninho que praticamente desaparecem dentro dele. A reprodução pode ocorrer ao longo de quase todo o ano, variando conforme a região.

Apesar do tamanho diminuto, são aves destemidas: quando alguém se aproxima do ninho, o besourinho-da-mata chega bem perto, sem demonstrar muito receio. Geralmente mantem um poleiro fixo no interior da mata, de onde cantam com frequência, sendo seu canto descrito como um "si-sí-sí-sísisisisisi" repetido.

Close-up do besourinho-da-mata (Phaethornis ruber) em um poleiro fixo no sub-bosque da Mata Atlântica potiguar. A ave aparece com a plumagem levemente eriçada e o bico apontado para cima em postura de canto.

Habitat, ocorrência e distribuição geográfica

besourinho-da-mata(P. ruber) é uma espécie residente no Brasil, que demonstra uma plasticidade ecológica considerável, habitando desde formações florestais densas até áreas abertas e antropizadas. Seu nicho ecológico abrange predominantemente o interior e as bordas de florestas úmidas e semidecíduas, estendendo-se para ecótonos e formações do bioma Cerrado, tais como matas de galeria, matas ciliares e savanas arborizadas. 

Em termos de distribuição geográfica, a espécie está presente desde as Guianas e Venezuela até a Bolívia, ocorrendo em todo o Brasil com exceção da região Sul.

Durante as minhas excursões pelo estado do Rio Grande do Norte, registrei essa espécie apenas na mesorregião Leste Potiguar, no bioma Mata Atlântica. 

Considerações finais

Tão pequeno que quase some entre as folhas, o besourinho-da-mata poliniza, equilibra e anima os ambientes por onde passa e depende diretamente da manutenção de fragmentos florestais para continuar fazendo isso.

Você já viu esse beija-flor durante suas trilhas ou expedições? Conta nos comentários.

Se este post despertou sua curiosidade sobre a fauna do RN, compartilhe com alguém que ainda não conhece esse minúsculo prodígio das nossas florestas. Siga o blog “Fauna e Flora do RN” e nos ajude a mostrar que a biodiversidade potiguar é riquíssima.

Referências

FAVRETTO, M. A. Aves do Brasil, vol I: Rheiformes a Psittaciformes. Florianópolis, 2021. 596 p. : il.

LIMA, L. M. Aves da Mata Atlântica: riqueza, composição, status, endemismos e conservação. 2013. 513 f. Dissertação (Mestrado em Ciências) - Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013.

LIMA, Pedro Cerqueira. Aves do litoral norte da Bahia. 1. ed. Bahia: AO, 2006.

PERLO, Ber van. A Field Guide to the Birds of Brazil. Princeton: Princeton University Press, 2009.

PIACENTINI, V. Q. et al. Annotated checklist of the birds of Brazil by the Brazilian Ornithological Records Committee / Lista comentada das aves do Brasil pelo Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos. Revista Brasileira de Ornitologia, v. 23, n. 2, p. 91–298, 2015.

SAGOT-MARTIN, F. et al. An updated checklist of the birds of Rio Grande do Norte, Brazil, with comments on new, rare, and unconfirmed species. Bulletin of the British Ornithologists’ Club, v. 140, n. 3, p. 218-298, 2020.

SICK, H. Ornitologia brasileira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. 862 p.

SIGRIST, T. Avifauna Brasileira: The avis brasilis field guide to the birds of Brazil. 1. ed. São Paulo: Editora Avisbrasilis, 2009.

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quarta-feira, 6 de maio de 2026

Por que observar aves reduz ansiedade, melhora o cérebro e ainda ajuda o planeta? A ciência explica.

Biólogo e observador de aves fazendo registro de avifauna com binóculo em ambiente de mata.

Existe um momento que muita gente que passarinha (observa aves) descreve com clareza: aquele instante em que você está caminhando por um lugar qualquer, distraído pelos seus próprios pensamentos, e de repente um pássaro pousa a poucos metros de distância. Você congela. Esquece o celular, esquece as tarefas pendentes, é como se o tempo parasse. Por alguns instantes o mundo inteiro cabe naquela visão daquele ser alado. Você fica num tipo de êxtase.

Não é à toa que essa experiência está conquistando o mundo. A observação de aves ou birdwatching (passarinhar, como dizemos no Brasil), cresce vertiginosamente no mundo. Nos Estados Unidos, quase 100 milhões de pessoas se identificam como observadores de aves, segundo dados do U.S. Fish & Wildlife Service.

Mas por trás dessa febre global, a ciência tem buscado responder uma questão simples: o que acontece com as pessoas que param para observar aves?

A resposta é surpreendente o suficiente para você fechar as redes sociais e sair para observar aves hoje mesmo. Dúvida? Então, seguem os 5 principais motivos para observar aves:

1. Sua saúde mental vai agradecer com horas de validade!

Em 2022, pesquisadores do King's College London publicaram um estudo na revista Scientific Reports que acompanhou 1.292 participantes ao longo de mais de três anos, com 26.856 registros de avaliação de humor feitos em tempo real por um aplicativo. O resultado foi inequívoco: encontros cotidianos com aves estavam associados a melhorias duradouras no bem-estar mental.

Montagem fotográfica de biólogo observando aves e fotos em close de sanhaço e beija-flor

Mas o detalhe mais fascinante é a duração desse efeito. Ver ou ouvir aves melhorou o bem-estar das pessoas por até oito horas. E os benefícios foram observados tanto em pessoas com depressão quanto naquelas sem nenhum diagnóstico de saúde mental.

Outro estudo experimental piloto da Universidade Estadual da Carolina do Norte, publicado em 2024 no Journal of Environmental Psychology, testou observação de aves em 112 estudantes universitários que é considerado um grupo de alto risco para problemas de saúde mental. Os resultados confirmaram que o birdwatching reduz o sofrimento psicológico e pode aumentar o bem-estar subjetivo.

2. O seu cérebro muda fisicamente (para melhor) com birdwatching

Passarinhar não apenas faz você se sentir bem, ela pode reestruturar fisicamente o seu cérebro.

Um estudo publicado em fevereiro de 2026 no Journal of Neuroscience, conduzido pelo Instituto de Pesquisa Rotman, em Toronto, comparou os cérebros de observadores experientes com os de iniciantes. Em comparação com os iniciantes, observadores experientes apresentaram estrutura cerebral mais compacta nas regiões associadas à atenção e à percepção visual, as áreas frontoparietal e cortical posterior. Quanto mais compacta a estrutura cerebral, melhor a capacidade de identificar aves. Em outras palavras, maior densidade nessas regiões indica uma comunicação mais eficiente entre os neurônios.

Ilustração digital de um cérebro humano com conexões neurais intensas representando a neuroplasticidade no birdwatching.

 É como se o cérebro dos passarinheiros experientes tivesse sido treinado não em uma academia, mas nos ambientes naturais onde eles passaram horas aguçando percepção, memória e atenção. Exames de imagem mostraram que os cérebros de observadores experientes eram mais densos em áreas associadas à memória de trabalho, consciência espacial e reconhecimento de objetos.

E você não precisa esperar anos para colher esses benefícios cognitivos. Birdwatching ativa um padrão cognitivo chamado "fascinação suave", um conceito da Teoria da Restauração da Atenção, desenvolvida pelos psicólogos ambientais Rachel e Stephen Kaplan. Ao contrário da atenção dirigida, que usamos no trabalho e nas telas, a fascinação suave permite que o cérebro descanse e se recupere sem que percamos o engajamento com o ambiente. É uma das poucas atividades modernas capazes de produzir esse estado, algo que o scroll infinito do celular nunca vai conseguir fazer.

3. Pássaros são o termômetro da natureza e reduzem sua ansiedade em 30% na cidade

Em 2017, pesquisadores da Universidade de Exeter publicaram na revista BioScience um estudo que mediu características naturais em bairros urbanos. Cobertura de vegetação e abundância de pássaros no período da tarde estavam positivamente associadas a uma menor prevalência de depressão, ansiedade e estresse. Os resultados foram tão claros que os pesquisadores conseguiram quantificar o percentual mínimo de cobertura vegetal necessário para reduzir cada problema: 20% para depressão, 30% para ansiedade e 20% para estresse.

Mosaico de aves urbanas comuns como Rolinha,cambacica e Suiriri em fios e telhados

Além disso, pesquisadores explicam que a natureza melhora a concentração ao reduzir a fadiga mental, e reduz o estresse ao diminuir a pressão arterial e os níveis de hormônios associados ao estresse, como adrenalina, cortisol e noradrenalina. Assim, ao sair de casa para passarinhar, você entra em contato com ambientes naturais, ativando todos esses mecanismos de uma só vez.

4. Birdwatching cria comunidades reais e combate o isolamento urbano

A observação de aves é uma das formas mais eficazes de criar vínculos humanos genuínos.

Uma revisão abrangente da literatura científica, publicada em 2025 na revista Ecopsychology, identificou que passarinhar gera benefícios no nível comunitário, como a formação de grupos sociais com interesses comuns.

Grupo de pessoas de diferentes idades praticando observação de aves com binóculos na floresta

Esses grupos(clubes de observação e grupos de WhatsApp) funcionam como espaços de troca de informações (identificações de aves e saídas para passarinhar etc.), de pertencimento e de propósito compartilhado.

Para quem vive em cidades grandes, onde o isolamento social é uma epidemia silenciosa, isso tem um peso enorme. Não é pouca coisa pertencer a algo ainda mais quando esse algo te leva para fora da tela e para dentro do mundo real.

5. Você vira cientista cidadão e protege espécies de verdade!

Ao passarinhar, você pode contribuir ativamente com a ciência global de conservação ambiental.

Isso porque o fenômeno da ciência cidadã transformou a observação de aves em uma das maiores redes de coleta de dados ambientais do planeta. Plataformas como o eBird, do Cornell Lab of Ornithology, agregam milhões de registros feitos por observadores ao redor do mundo, dados que cientistas profissionais jamais conseguiriam coletar sozinhos.

Mão segurando smartphone exibindo o aplicativo eBird

E já existe evidência inicial de que a observação de aves(birdwatching) confere benefícios educacionais com aumento de contribuições à ciência cidadã e maior engajamento em ações conservacionistas, áreas cada vez mais importantes diante das mudanças climáticas e da destruição de habitats.

Em outras palavras: quando você registra um bem-te-vi no seu quintal ou um sabiá numa trilha, essa informação pode alimentar banco de dados científicos que ajudam a proteger espécies e ecossistemas. Você deixa de ser apenas um espectador e passa a ser um guardião.

Conclusão

A ciência mostra algo que nós, passarinheiros, sempre soubemos na prática: parar para observar aves é uma forma de desacelerar, de reparar o mundo ao nosso redor, de cuidar de si enquanto cuida da natureza.

Não é necessário ser especialista, ter equipamentos caros ou morar perto de uma reserva florestal. Estudos sugerem que passarinhar proporciona mais bem-estar e reduz mais o estresse do que um passeio qualquer na natureza.

E se você ainda está em dúvida, aqui vai um convite: amanhã quando acordar, antes de abrir qualquer aplicativo, vá até uma janela ou varanda e fique pelo menos 5 minutos só escutando e observando aves. 

👉Depois deixa nos comentários como foi a sua experiência...

Referências:

Andrews, J. G., Ammirati, R. J. & Andrews, C. J. M. (2025). Birding Benefits: A Review of Mental Health, Cognitive, Social, and Conservation Impacts. Ecopsychology. [SAGE Publications/Mary Ann Liebert].

Hammoud, R. et al. (2022). Smartphone-based ecological momentary assessment reveals mental health benefits of birdlife. Scientific Reports, Nature.

Kaplan, R. & Kaplan, S. (1989). The Experience of Nature: A Psychological Perspective. Cambridge University Press. (Fundamentos da Teoria da Restauração da Atenção - ART).

Peterson, M. N. et al. (2024). Birdwatching linked to increased psychological well-being on college campuses. Journal of Environmental Psychology.

Rotman Research Institute (2026). Structural brain changes in expert birdwatchers: The impact of long-term visual and auditory expertise. Journal of Neuroscience. (Reportado via NBC News/Psychology Today).

Shanahan, D. F. et al. (2017). Health benefits from nature experiences depend on dose. BioScience. [Oxford Academic].

University of Derby / BioRxiv (2024). Using nature-based citizen science initiatives to enhance nature connection and mental health: A large-scale analysis.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Conheça a borboleta que tem "joias falsas" nas asas e adora frutas fermentadas

 

Borboleta Paryphthimoides terrestris vista de perfil sobre uma folha verde, destacando as listras marrons e os ocelos (manchas em formato de olho) nas asas.

A borboleta da foto recebeu o nome científico de Paryphthimoides terrestris (Butler, 1867), pertencente à família Nymphalidae e à subfamília Satyrinae. Sua principal característica distintiva são as marcações metálicas irregulares entre os dois maiores ocelos da asa posterior, além da presença de uma única linha submarginal na região do canto interno da margem da asa posterior.

Quando adulta, Paryphthimoides terrestris alimenta-se principalmente do caldo(suco) de frutos maduros ou fermentados (espécie frugívora), enquanto na fase larval (lagarta) suas larvas consomem folhas de gramíneas e ciperáceas. Entre as suas principais plantas hospedeiras estão: Ichnanthus pallens, Lasiacis sloanei, Panicum pilosum, Panicum polygonatum, Paspalum decumbens, Setaria paniculifera, Tripsacum sp., Cyperus sp. e Scleria sp.

Essa borboleta habita florestas tropicais, formações secundárias abertas e ambientes de borda florestal. Trata-se de uma espécie neotropical com distribuição desde a América Central até o Brasil, ocorrendo em países como Nicarágua, Panamá, Trinidad, Guiana Francesa e Brasil. No Brasil, Paryphthimoides terrestris apresenta ampla distribuição geográfica, com registros em todas as regiões do país. A espécie ocorre principalmente em áreas de floresta tropical, formações secundárias abertas e ambientes de borda florestal, sendo mais frequentemente associada aos biomas Amazônia e Mata Atlântica.  

Durante minhas expedições pelo Rio Grande do Norte, tenho observado essa espécie de borboleta apenas na Mesorregião Leste Potiguar, principalmente no extremo sul da Mata Atlântica potiguar. 

👉“E você, já encontrou essa borboleta por aí? Conta pra gente nos comentários! 
Se curte esse tipo de descoberta, segue o blog Fauna e Flora do RN pra não perder os próximos registros.”

Referências

BECCALONI, G. W. et al. Catálogo das plantas hospedeiras das borboletas neotropicais. Londres: S.E.A./Ribes/CYTED/Museu de História Natural/IVIC, 2008.

CASAGRANDE, M. M.; PIOVESAN, M.; ZACCA, T. Satyrini. In: Catálogo Taxonômico da Fauna do Brasil. [S. l.]: PNUD, 2026. Disponível em: http://fauna.jbrj.gov.br/fauna/faunadobrasil/150503. Acesso em: 27 abr. 2026.

SANTOS, L. N. dos; BRITO, M. R. M. de; KERPEL, S. M. Borboletas da RPPN Mata Estrela: guia de espécies. Coordenação de Márcio Zikán Cardoso. 1. ed. Natal: Ed. das Autoras, 2022.

SAVELA, Markku. Paryphthimoides Forster, 1964. Lepidoptera and some other life forms. [S. l.], 2023. Disponível em: https://ftp.funet.fi/index/Tree_of_life/insecta/lepidoptera/ditrysia/papilionoidea/nymphalidae/satyrinae/paryphthimoides/. Acesso em: 27 abr. 2026.

ZACCA, T. Revisão taxonômica dos gêneros neotropicais Paryphthimoides Forster, 1964 e Cissia Doubleday, 1848, com descrições de seis novos gêneros e 10 novas espécies de Euptychiina (Lepidoptera: Nymphalidae: Satyrinae). 2017. Tese (Doutorado em Ciências Biológicas – Entomologia) – Setor de Ciências Biológicas, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2017.

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terça-feira, 31 de março de 2026

Descubra o serra-pau gigante do RN: primo do maior besouro do mundo e uma raridade que poucos viram

 

Detalhes do besouro Ctenoscelis coeus, família Cerambycidae, encontrado na Mata Atlântica do Rio Grande do Norte. Fauna potiguar.

Besouro conhecido popularmente como serra-pau ou besouro-serrador, a espécie Ctenoscelis coeus (Perty, 1832) pertence à família Cerambycidae e à subfamília Prioninae. Esse grupo inclui espécies impressionantes, como Enoplocerus armillatus (Linnaeus, 1767), Mallodon spinibarbis (Linnaeus, 1758) e o famoso Titanus giganteus (Linnaeus, 1771), considerado o maior besouro do mundo.

O Serra-pau(Ctenoscelis coeus) chama atenção pelo porte robusto e, principalmente, pelas longas antenas que podem ser tão compridas quanto o corpo ou até ultrapassá-lo, especialmente nos machos. Essa é uma característica bastante comum entre os representantes da família Cerambycidae. O exemplar da foto tinha 10cm de comprimento total.

Besouro serra-pau Ctenoscelis coeus ao lado de uma caneta para comparação de tamanho. Registro de besouro gigante no Rio Grande do Norte.

Trata-se de uma espécie nativa, com registros nos biomas Mata Atlântica, Caatinga e Amazônia. Sua distribuição no Brasil abrange grande parte do território nacional, com ausência de registros na região Sul. Fora do país, também já foi registrada em áreas da América do Sul, como Guiana e Bolívia.

Durante minhas excursões pelo estado do Rio Grande do Norte, registrei essa espécie nas mesorregiões Leste Potiguar e Agreste Potiguar, tanto em áreas de Mata Atlântica quanto em zonas de transição (ecótono) entre Mata Atlântica e Caatinga. Curiosamente, nas duas ocasiões em que encontrei esse besouro, os indivíduos já estavam mortos, embora com o corpo intacto.

Apesar de seu tamanho e imponência, quase nada ainda se sabe sobre a biologia de Ctenoscelis coeus (Perty, 1832).

👉“E você, já encontrou um serra-pau por aí? Conta pra gente nos comentários! 
Se curte esse tipo de descoberta, segue o blog Fauna e Flora do RN pra não perder os próximos registros.”

Referências

LIMA, A. da Costa. Insetos do Brasil: 9.º tomo, Coleópteros, 3.ª parte. Rio de Janeiro: Escola Nacional de Agronomia, 1955. (Série Didática, n. 11). 1 arquivo PDF.

SOUTO, Glauber Henrique Borges de Oliveira; NETO, M. R.; SILVA, C. D. D. do. Check-list de Cerambycidae (Coleoptera, Insecta) para o Rio Grande do Norte, Brasil. Nature and Conservation, [S. l.], v. 18, n. 1, 2025. Disponível em: http://www.sustenere.inf.br. Acesso em: 31 mar. 2026.

MONNÉ, Marcela L.; MONNÉ, Miguel A. New species and new records of Cerambycidae (Insecta, Coleoptera) from RPPN Sanctuary of Caraça, Minas Gerais, Brazil. Zootaxa, [S. l.], v. 4319, n. 2, p. 201-262, 2017. Disponível em: https://doi.org/10.11646/zootaxa.4319.2.1. Acesso em: 31 mar. 2026.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Rolinha-cascavel ou Fogo-apagou? Conheça a pequena ave que chocalha e encanta os campos

Introdução

Você já ouviu um “fogo-apagou” ecoando no campo seco ou no quintal de casa e ficou tentando descobrir de onde vinha aquele som?
A rolinha-fogo-apagou (Columbina squammata (Lesson, 1831), família Columbidae), também conhecida como rolinha-cascavelinha(variação de rolinha-cascavel), rolinha-carijó, rola-pedrês, paruru e até “felix-cafofo”, é uma presença constante em áreas abertas do Brasil.

Rolinha-fogo-apagou (Columbina squammata) pousada em galho seco, exibindo plumagem escamada característica.


Descrição morfológica(características principais)

Com cerca de 18 a 22 cm de comprimento total e peso variando de 48 a 60 gramas, essa rolinha chama atenção pela plumagem de aspecto escamado(bordas escuras das penas), sendo a coloração superior predominantemente cinza-arenosa e a parte inferior esbranquiçada. As rêmiges(penas responsáveis pelo voo) apresentam tonalidade rufescente(ferrugíneo), bem visível em voo, e os lados da cauda são brancos. A cauda é relativamente longa e pode ser aberta em leque. Não há dimorfismo sexual, ou seja, machos e fêmeas são semelhantes na aparência.

História natural e importância ecológica

Desloca-se em casais ou pequenos bandos e forrageia diretamente no solo. Sua alimentação é variada: consome sementes, pequenas frutas, insetos como formigas e até pequenos moluscos (Gastropoda: Pupilla). Entre os vegetais registrados em sua dieta estão gêneros como Cereus, Croton, Euphorbia, Melocactus, Passiflora, Portulaca e Sida dentre outros.

Rolinha-cascavelinha caminhando no solo pedregoso em busca de sementes e pequenos insetos.

Na cadeia alimentar, também ocupa o papel de presa, sendo predada por várias espécies como por exemplo, o caburé (Glaucidium brasilianum), o falcão-de-coleira (Falco femoralis) e a cobra-bicuda.

Rolinha-fogo-apagou inclinada bebendo água em um riacho, com reflexo visível na superfície

Reprodução

O período reprodutivo dessa ave pode ocorrer quase o ano inteiro e o macho vocaliza durante o dia. Seu canto trissilábico, descrito como “u-gú-gú” ou “fogo-apagou”, é uma das marcas sonoras mais conhecidas da espécie, daí a origem do seu principal nome popular. Outro nome vulgar tem origem no som forte e vibrante das asas durante o voo que se assemelha ao “chocalho de uma cascavel”, característica que originou o nome “rolinha-cascavel”.

Na corte, o macho inclina o corpo horizontalmente diante da fêmea, ergue a cauda na vertical abrindo-a em leque e pode trocar carícias com o bico.

O ninho, construído pelo macho, apresenta a forma de uma pequena tigela feita de gravetos. A postura é de dois ovos brancos puros, medindo cerca de 22 x 17 mm e pesando em média 3,5 g. A incubação, realizada por ambos os adultos, dura cerca de 13 a 14 dias. Os filhotes deixam o ninho entre 12 e 15 dias após a eclosão. A espécie pode se reproduzir mais de uma vez ao ano.

Rolinha-fogo-apagou protegida em seu ninho construído sobre um cacto (Cereus jamacaru) com frutos vermelhos.

Habitat, ocorrência e distribuição geográfica

Espécie de origem nativa, residente e independente de ambientes florestais densos, a rolinha-fogo-apagou vive em campo seco, cerrado, restinga, áreas abertas, bordas de mata e próximo a zonas urbanas.

Ela ocorre da Venezuela ao Paraguai e Argentina (Misiones), estando presente em quase todo o Brasil, ocorrendo em grande parte do território nacional. Está presente em extensas áreas do Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul, além de ocupar porções significativas da região Norte. 

Durante as minhas excursões pelo estado do Rio Grande do Norte, tenho observado essa espécie tanto na Caatinga como na Mata Atlântica, nas mesorregiões Leste Potiguar, Agreste Potiguar, Central Potiguar e Oeste Potiguar.

Conclusão

Pequena e discreta à primeira vista, a rolinha-fogo-apagou revela sua presença pelo canto repetido que ecoa pelos campos e no ruído seco das asas que lembra o chocalho de uma cascavel. Nos ambientes abertos do Brasil, ela é uma lembrança constante de que até as espécies mais comuns guardam detalhes surpreendentes para quem observa com atenção.

Você já ouviu o canto “fogo-apagou” na sua cidade? Me diz aí nos comentários...

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Referências

FAVRETTO, M. A. Aves do Brasil, vol. I: Rheiformes a Psittaciformes. Florianópolis: [s. n.], 2021. 596 p.

LIMA, Pedro Cerqueira. Aves do litoral norte da Bahia. 1. ed. Bahia: AO, 2006.

PERLO, Ber van. A Field Guide to the Birds of Brazil. Princeton: Princeton University Press, 2009.

PICHORIM, Mauro et al. Guia de Aves da Estação Ecológica do Seridó. Natal: Caule de Papiro, 2016.

PICHORIM, M. et al. Pristine semi-arid areas in northeastern Brazil remain mainly on slopes of mountain ranges: a case study based on bird community of Serra de Santana. Tropical Zoology, [s. l.], v. 29, p. 189–204, 2016. Disponível em: https://doi.org/10.1080/03946975.2016.1235426. Acesso em: 28 fev. 2026.

SAGOT-MARTIN, F. et al. An updated checklist of the birds of Rio Grande do Norte, Brazil, with comments on new, rare, and unconfirmed species. Bulletin of the British Ornithologists’ Club, [s. l.], v. 140, n. 3, p. 218-298, 2020.

SICK, H. Ornitologia Brasileira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. 863 p.

SIGRIST, Tomas. Guia de Campo Avis Brasilis: Avifauna Brasileira. 4. ed. Vinhedo: Avisbrasilis, 2014.

SILVA, J. M. C. et al. Aves da Caatinga: status, uso do hábitat e sensitividade. In: LEAL, I. R.; TABARELLI, M.; SILVA, J. M. C. (ed.). Ecologia e Conservação da Caatinga. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2003. 

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sábado, 31 de janeiro de 2026

Marimbondo-carijó: a vespa que come lagartas no seu quintal

Descubra a Polistes versicolor, a vespa predadora que controla pragas no Brasil e poliniza flores de forma totalmente natural e sem veneno!

Introdução

Quem nunca tomou um susto ao ver um marimbondo rondando o quintal ou o telhado?
O Marimbondo-carijó, Polistes versicolor (família Vespidae), é uma vespa social muito comum no Brasil e, apesar da fama de agressiva, tem um papel importante no controle de insetos que atacam plantações. 


Descrição morfológica (características principais)

P. versicolor apresenta coloração ferrugem a negro-amarronzada, com marcas amarelas bem evidentes no corpo e asas transparentes. A rainha é significativamente maior que os demais indivíduos da colônia e apresenta comportamento altamente agressivo. Quando ameaçadas, as vespas levantam as asas e adotam uma clara posição de alerta, típica da espécie.

História natural e comportamento

O marimbondo-carijó (Polistes versicolor) é uma vespa social de comportamento oportunista, cujas colônias são organizadas sob uma hierarquia rígida liderada por uma rainha dominante. O ciclo de vida dessas comunidades é sazonal, variando geralmente entre 3 e 10 meses. Como predadora ativa, a espécie foca intensamente na captura de larvas de insetos, demonstrando uma preferência por lagartas de Lepidoptera. Sua dieta é variada: ela combate desde as lagartas desfolhadoras do eucalipto e do girassol até espécies como a Heraclides anchysiades. Além disso, sua eficiência é comprovada em diferentes cenários, sendo observada caçando a lagarta Paracles fusca e espécie da família Saturniidae, esta foi em áreas de cultivo de mandioca na Mata Atlântica já modificada pela ação humana. Além da atividade caçadora, os adultos visitam flores regularmente em busca de néctar para suprir suas necessidades energéticas.

Importância ecológica

Apesar de sua fama de agressiva, a P. versicolor desempenha funções vitais para o equilíbrio dos ecossistemas. A espécie atua como um eficiente agente de controle biológico natural, sendo uma aliada estratégica na agricultura ao combater pragas em cultivos por exemplo de girassol, eucalipto e mandioca — inclusive em áreas antropizadas de Mata Atlântica. Estima-se que cada colônia pode capturar milhares de insetos por ano, ajudando a manter o equilíbrio do ambiente. Além disso, os adultos também visitam flores em busca de néctar e acabam polinizando plantas, especialmente da família Asteraceae.


Habitat, ocorrência e distribuição geográfica

O Marimbondo-carijó, Polistes versicolor (Olivier, 1791), é uma vespa social nativa da América do Sul continental, amplamente distribuída no Brasil com ocorrência confirmada em todas as regiões do país. É relativamente comum em áreas urbanas, plantações e ambientes antrópicos, onde constrói ninhos de celulose, sem envoltório protetor. As colônias são frequentemente encontradas em edifícios abandonados ou em construção, demonstrando alta capacidade de adaptação a ambientes modificados.

Conclusão

Aquele susto inicial ao ver um marimbondo no telhado logo se transforma em admiração quando entendemos seu papel. Muito além da fama de perigosa, a Polistes versicolor entrega serviços ecológicos que beneficiam a todos nós, da agricultura ao jardim de casa. Valorizar essa pequena criatura é, em última análise, valorizar a saúde do ambiente em que vivemos.

👉Você já encontrou um ninho de Marimbondo-carijó em casa ou na zona rural? Como foi essa experiência?  

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Referências

BORGES, L. T. I. et al. Registro de predação de lagarta (Lepidoptera: Saturniidae) por vespa social Polistes versicolor (Olivier, 1792) (Hymenoptera: Vespidae). Entomology Beginners, v. 6, e093, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.12741/2675-9276.v6.e093.

ELISEI, T. Vespas sociais (Hymenoptera, Vespidae, Polistinae) do Estado da Paraíba: diversidade e estudo comportamental. 2017. 154 f. Tese (Doutorado em Ciências Biológicas) – Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2017.

FILS-AIMÉ, F. Ocorrência, biologia, inimigos naturais e modelagem de Paracles fusca Walker, 1856 (Lepidoptera: Arctiidae) em batata yacon. 2025. 111 f. Dissertação (Mestrado em Produção Vegetal) – Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, Diamantina, 2025.

HERMES, M. G.; SOMAVILLA, A. Polistini. In: Catálogo Taxonômico da Fauna do Brasil. PNUD, 2026. Disponível em: http://fauna.jbrj.gov.br/fauna/faunadobrasil/78513. Acesso em: 31 jan. 2026.

PREZOTO, F. et al. Prey captured and used in Polistes versicolor (Olivier) (Hymenoptera: Vespidae) nourishment. Neotropical Entomology, v. 35, n. 5, p. 707-709, 2006. DOI: 10.1590/S1519-566X2006000500021.

VIRGÍNIO, F.; MACIEL, T. T.; BARBOSA, B. C. Novas contribuições para o conhecimento de vespas sociais (Hymenoptera: Vespidae) para Estado do Rio Grande do Norte, Brasil. Entomotropica, v. 31, n. 26, p. 221-226, 2016.

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