Presente em lagoas, açudes e áreas úmidas potiguares, a capivara (Hydrochoerus hydrochaeris) revela uma fascinante adaptação à vida semi-aquática e desempenha papel essencial na natureza.
🌿 Introdução
Você sabia que o maior roedor do planeta é um excelente nadador e vive em
grupos familiares às margens dos rios brasileiros?
A capivara (Hydrochoerus hydrochaeris,
família Caviidae) é um dos animais mais emblemáticos da fauna
sul-americana. Presente em todo o território nacional, inclusive no Rio Grande
do Norte, ela representa a perfeita harmonia entre o ambiente aquático e o
terrestre. Apesar de sua aparência dócil, esse gigante tranquilo possui
adaptações surpreendentes e uma vida social complexa que desperta a curiosidade
de cientistas e amantes da natureza.
🐾 Descrição morfológica
A capivara impressiona pelo tamanho: pesa entre 35
e 65 quilos e pode atingir 1,34 metro de
comprimento, sendo o maior roedor existente
no mundo. Seu corpo é robusto, de formato cilíndrico, coberto
por pelagem densa e grossa, com coloração predominantemente castanho-avermelhado nas partes superiores,
e tons amarelados ou amarronzados na região
ventral.
Possui cabeça grande e orelhas curtas e
arredondadas, olhos altos que permitem observar o ambiente
enquanto o corpo permanece submerso e patas
parcialmente palmadas, providas de membranas
interdigitais que facilitam a locomoção na água.
As patas dianteiras têm quatro
dedos, enquanto as traseiras tem três. A cauda é vestigial,
quase imperceptível, e a fêmea apresenta quatro pares de mamas,
uma característica importante para a criação coletiva dos filhotes.
Essas adaptações anatômicas fazem da capivara uma verdadeira especialista em
ambientes alagados — um roedor semi-aquático perfeitamente moldado à vida entre
a terra e a água.
🌎 História natural e comportamento
As capivaras são herbívoras diurnas(mais ativa no final da tarde e início da noite),
alimentando-se principalmente de gramíneas e vegetação
aquática, como capim e aguapés. Sua dieta, no entanto, varia de
acordo com a estação do ano e a disponibilidade de recursos. Durante os
períodos de seca, grandes grupos podem se reunir ao redor das poucas fontes de
água restantes, formando agregações de até cem indivíduos.
A vida social da espécie é intensa e bem organizada. Os grupos, geralmente
compostos por 2 a 30 animais, são
liderados por um macho dominante,
responsável por proteger o território e as fêmeas, onde ele defende o acesso
aos recursos. Esse sistema de acasalamento é poligínico,
e as interações dentro do bando incluem vocalizações, banhos de lama e longos
períodos de descanso coletivo ao sol.
A reprodução ocorre durante todo o ano,
especialmente nas regiões tropicais. A gestação dura cerca de 120
dias a 5 meses, resultando em prole de 1 a 7 filhotes,
com média de 3 a 4. Logo após o nascimento, os filhotes são precoces e já conseguem acompanhar o grupo em poucas horas, aprendendo rapidamente a nadar e pastar.
Estudos realizados no Pantanal e na Venezuela mostram que o pico de
nascimentos acontece no período chuvoso, quando a vegetação está mais abundante. A expectativa de vida reprodutiva é curta em comparação a outros mamíferos, cerca de 5 anos, mas o sucesso reprodutivo é elevado graças à estrutura social coesa.
Um aspecto notável da capivara é sua notável tolerância a
ambientes modificados pelo homem. É comum encontrar populações
vivendo em áreas urbanas, como margens de rios canalizados e parques dentro de
grandes cidades. Em São Paulo, por exemplo, grupos prosperam mesmo às margens
dos poluídos rios Tietê e Pinheiros, mostrando a incrível capacidade de
adaptação da espécie.
🌍 Habitat, ocorrência e distribuição
geográfica
A Hydrochoerus hydrochaeris apresenta ampla
distribuição geográfica, ocorrendo em quase toda a América do
Sul, do leste dos Andes até o Uruguai
e Argentina, passando por Colômbia, Venezuela,
Guianas, Peru, Bolívia, Paraguai e, claro, todo
o Brasil.
No território brasileiro, está presente em todos
os estados, incluindo o Rio Grande do Norte,
sendo mais comum nas margens de rios, lagos, açudes e
áreas úmidas de planície. Ela habita praticamente todos os
biomas nacionais — Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata
Atlântica, Pantanal e Pampa — e pode ocupar até savana
sazonalmente alagada, pântanos de mangue e áreas alagadas salobras.
Durante minhas excursões pelo estado do Rio Grande do
Norte, tenho observado a capivara com maior frequência na faixa costeira,
especialmente no litoral sul do RN, em áreas pantanosas, represas e lagos
cercados por vegetação típica do bioma Mata Atlântica. Além desses registros
litorâneos, também já encontrei evidências de sua presença ao redor de açude em áreas de ecótono-transição entre a Mata Atlântica e a Caatinga, na
mesorregião Agreste Potiguar.
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| Pegada de Capivara em solo úmido as margens de açude em área de transição entre Mata Atlântica e Caatinga Potiguar. |
⚠️ Ameaças e grau de risco
A capivara não está ameaçada de extinção em nível mundial de acordo com a
lista vermelha da IUCN, e também em nível
nacional de acordo como o Livro vermelho da fauna brasileira ameaçada de
extinção. Em ambas as avaliações ela foi classificada na categoria “LC”-Menos
Preocupante. Isso significa que não
há evidências atuais de declínio populacional severo, embora a
caça ainda represente a principal ameaça
local em algumas regiões.
Historicamente, a espécie foi amplamente caçada por sua carne
e couro, e entre 1976 e 1979, quase 80
mil peles foram exportadas apenas da Argentina. No Brasil, acredita-se que a
pressão de caça diminuiu com o aumento de criadouros legalizados e
manejo sustentável, mas a prática de abate ainda ocorre em
áreas isoladas, o que deve contribuir para extinções locais.
Além disso, a perda de habitats úmidos
— devido à drenagem, agricultura intensiva e urbanização — pode afetar
populações locais, especialmente em regiões semiáridas. Mesmo assim, em várias
localidades brasileiras há indícios de crescimento populacional,
resultado da grande capacidade de adaptação e da ausência de predadores naturais em zonas urbanas.
Em alguns contextos, o aumento populacional gera conflitos com agricultores,
pois bandos podem danificar plantações de milho e pastagens.
Por isso, órgãos ambientais e pesquisadores estudam estratégias de manejo
populacional e convivência, equilibrando conservação e
controle.
🌿 Importância ecológica
A capivara exerce um papel
ecológico fundamental nos ecossistemas aquáticos e ribeirinhos.
Como herbívora de grande porte, ela controla
o crescimento da vegetação do entorno das áreas alagadas e da
vegetação aquática, além de influenciar a distribuição
de nutrientes nas margens de rios e lagoas. Seus excrementos
enriquecem o solo, favorecendo o crescimento de plantas e
contribuindo para a ciclagem de matéria orgânica.
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| Fezes de capivara em trilha no interior da Mata Atlântica as margens de área alagada no Rio Grande do Norte. |
Além disso, é presa natural de grandes predadores, como as onças, a jaguatirica, a sucuri e a jiboia, sendo elo importante nas cadeias tróficas.
💡 Curiosidades sobre a capivara
· A capivara
mantém-se nas proximidades de corpos de água, pois ao sentir-se ameaçada, ela
mergulha, ficando submersa por tempo suficiente para escapar.
·
Vive em
grupos coesos, com forte comportamento social e cuidado coletivo dos filhotes.
·
Seu couro era tão valorizado que impulsionou uma
intensa caça comercial nas décadas de 1970 e 1980.
·
No Brasil, pode ser vista até em parques
urbanos, convivendo com humanos em harmonia surpreendente.
👉Você já avistou capivaras nas lagoas ou rios do Rio Grande do Norte?
Conte nos comentários onde foi e como foi a experiência de observar esse
gigante pacífico da nossa fauna!
A capivara é um exemplo de adaptação e equilíbrio
na natureza. Símbolo de tranquilidade, ela mostra que a
convivência entre fauna silvestre e áreas urbanas é possível — desde que haja
respeito e preservação.
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